A PANDEMIA E AS TROCAS CRIATIVAS

Cada mês de 2020 apresenta para nós uma nova fase dessa experiência humana profunda que estamos vivendo. Muitos falam que sairemos mais fortes dessa, é o que sinto e espero. Ficar longe da família, não poder cuidar dos mais velhos presencialmente e ver gente perdendo seus empregos ou fechando seus negócios deixam todos com os nervos à flor da pele.

Cada pessoa ou família tem uma conduta quanto ao distanciamento social, o que não está em discussão nem cabe julgamento. Até porque, num cenário tão desolador como esse, no qual nem as informações que saem na imprensa nos ajudam, prevalecem nossa bússola interna, intuição e visão de mundo.

Mesmo assim, estamos nos deparando com indícios de uma sociedade em transformação. Escrevi, para o canal Meu Bolso em Dia, duas matérias que dão sinais disso. Uma fala sobre os empreendedores criativos e corajosos que fizeram uma grande manobra para sobreviver à pandemia. E a outra que aponta como a solidariedade e a cultura da doação vêm ganhando corpo.

Ainda assim, é um processo que nos desafia. Como ouvi de uma astróloga que sigo, a Claudia Lisboa, é como se estivéssemos subindo uma ladeira íngreme. Um esforço enorme de sobrevivência nos convoca o tempo todo, além de uma sensação que, justamente em função de tantas dificuldades, também precisamos ajudar o outro. Sentimos que pode ser bom, mas os músculos doem e ainda não vemos, no horizonte, nenhuma perspectiva de descanso.

Durante esses quatro meses de pandemia, fui percebendo que nenhuma ação racional, concreta e sobretudo já conhecida conseguia se manter de pé. Como prospectar um contrato de serviço com empresas que estão quebrando ou que acabaram de demitir metade do seu quadro de funcionários? Como tentar girar a economia em mercados parados? Muitas perguntas para poucas respostas.

Encontro online

Mesmo “sem ter muito o que fazer”, dicotomicamente, me dei conta que muito podia ser feito. Dialogando com as minhas inquietações, resolvi jogar uma ideia na rede: tive a intuição de que o diálogo e a troca “nos salvariam” dessa sensação de que não existe mais mundo lá fora, de que precisamos esperar um pouco mais para colocar o pé nessa nova normalidade. Ainda que tenho consciência que esta é um sentimento pessoal. Pode não ser assim para você.

De todo modo, resolvi, então, lançar no Instagram um convite para um bate-papo, no qual poderiam participar quem se sentisse atraído, sem tema predefinido. Sem grandes pretensões, queria iniciar uma construção baseada no exercício da simples conversa, do olho no olho, mesmo que pelas telas.

Foram dois encontros. Em grupos pequenos, tivemos a oportunidade de conhecer e escutar as histórias e desafios de cada um. Um espaço de escuta onde podemos “arejar as ideias” e ter insights para nossa própria vida e carreira. É uma forma mais leve, divertida e imersiva de se fazer networking.

Em sua maioria empreendedorxs ou prestadorxs de serviço, cada participante tem contado sobre mudanças estruturais nas suas dinâmicas de trabalho (por exemplo, da carteira assinada ao CNPJ), da inevitável aproximação com o mundo digital e os aprendizados (sobretudo internos) trazidos pela pandemia.

Pretendo continuar esses encontros, que acontecem pelo Google Meet. Ainda sem nome, mas que já nasceu rico em criatividade, afeto e troca. Caso tenha interesse em participar, envie seus dados no formulário abaixo e aguarde contato. Em breve, mando para você informações sobre a próxima data.

O MUNDO ESTÁ MUDANDO. E AGORA?

O que a pandemia tem feito de você e o que você tem feito da pandemia?

Desde os primeiros dias da quarentena, em casa, já passamos pelo caos absoluto e pela tentativa de organização – espacial, mental e na rotina. Já tentamos cumprir os roteiros conhecidos, com frustrações, e começamos a criar ainda mais, o que já era um hábito por aqui. Ainda no escuro, também estamos farejando as regras desse novo mundo – se é que elas já existem.

Seguimos na tentativa e no erro. Caindo e se levantando. Tateando para saber onde está quente. Deixando-nos nos levar pelas nossas forças internas, quando elas chegam, e pela insegurança, quando é só o que tem para hoje.

Vivendo tudo isso, decidi criar esse artigo sobre o que tenho pensado por aqui e também dividir as incríveis iniciativas da minha rede de amigos e conhecidos. Afinal, o que as pessoas têm feito diante dessa crise sem precedentes?

CUIDE DA REDE QUE VOCÊ CONHECE E ALCANÇA

Já ficou claro que nada será como antes. Que muitas ações óbvias, que aconteciam até o Covid-19, começam a perder função. Ninguém sabe o que esperar. Nesse contexto, atender alguém que chega com um pedido tem feito mais sentido do que qualquer outra coisa, muito mais do que enviar uma newsletter, criar um stories no Instagram ou até escrever esse artigo.

Essa semana, uma aluna pediu contatos profissionais e consegui fazer esta ponte. Sem querer pagar de boa moça, senti de verdade que este tipo de ação indica uma nova ordem nas relações, pessoal e de trabalho. Atitudes simples que acontecem raramente precisam se tornar uma prática.

Muda o caráter. Não é simples doação de tempo ou outros recursos, mas passará a ser uma questão de sobrevivência, tal qual entendemos o conceito de rede de apoio: eu me interesso por você para ter quem se interesse por mim.

Olhando para as grandes empresas, a responsabilidade social será um conceito cada vez mais integrado aos demais departamentos. Isso, claro, se conseguirem desenvolver ações efetivas, consistentes e genuínas.

Quanto ganha o Outback quando doa sua produção de ovos para pequenos comércios e presenteia profissionais da saúde? Ou, ainda, quando empresas como a Riachuelo decidem suprir os hospitais de insumos e doar máscaras de proteção para população mais vulnerável? Já são muitos os exemplos.

Organizações que insistirem numa comunicação “antes-Codiv” quando o mundo era “normal” correm riscos, assim como as oportunistas. O momento pede bom sendo e altruísmo, como fez a Netflix em seu Twitter, convocando seus seguidores a consumirem conteúdos nas plataformas concorrentes.

COLOCAR A CARA DO DIGITAL

Saímos da toca. Se antes o excesso de autocrítica nos impedia de dar a cara à tapa no mundo digital, agora compartilhar conteúdo virou regra.

É dicotômico. Ao mesmo tempo em que o coronavírus nos estimula a descobrir as relações, a conexão, o analógico (tal como vivíamos nos anos 80, cozinhando devagar ou sentados no chão trocando figurinhas), ele também veio nos questionar sobre o uso que temos feito desse poder todo que temos nas mãos.

Na minha cabeça viajante, é como se nos perguntasse: “ok, vocês têm o privilégio de estar vivos nessa era que não existe nenhuma barreira na comunicação e ainda não estão fazendo isso direito por quê?”.

O conteúdo é a chave. Cada um de nós acumula saberes ricos, individuais e específicos que, desculpe falar, não têm que ser só nosso. É egoísmo, sentimento com baixa imunidade. Precisamos entender que nossa inteligência é a mais potente ferramenta de transmissão do conhecimento. Just do it!

Exemplos da minha rede:

  • Minha amiga designer de joias, Ana Passos, que já tinha um feed lindíssimo com suas produções, começou a compartilhar conteúdos sobre joias, livros e reflexões do momento no seu Instagram.
  • Meu amigo Zé Mario Ferrarini, que é biólogo e estudante de medicina, abriu um perfil no Instagram (antes ele não tinha) só para dividir conteúdos sobre sua visão do Covid-19 segundo o tarô, uma de suas áreas de estudo.
  • Em seu perfil no Facebook, a redatora e roteirista Priscila Nicolielo tem realizado lives gratuitas para quem quer aprimorar a escrita criativa.
  • Já a planejadora financeira Andy de Santis ensina, passo a passo, como não perder o controle das finanças nesse período de pandemia.

Se você está chegando agora no mundo do homeoffice e do digital, recomendo a leitura do artigo escrito pela Mariana Moreira sobre as ferramentas que auxiliam no trabalho. Quem quer aprofundar seus conhecimentos em trabalho remoto, convido a visita ao site Movebla, do também amigo Anderson Costa.

Respira e não pira. Todos vamos perder agora para ganhar depois. No individual, mas sobretudo no coletivo. A hora é de seguir nos apoiando, até porque #vaipassar. E, quando passar, o mundo será outro. Por enquanto, se você pode, #fiqueemcasa e, quando se sentir forte, doe, produza, compartilhe.